por Juju Cassanha

Não contei pra vocês, mas tenho um bode. Ele é preto. Pretinho básico, combina com várias roupas e pode me acompanhar em várias situações, sem destoar ou chamar muita atenção.
Trato bem dele! Quando ele aparece, levo comigo pro trabalho, saio com ele na coleira na hora do almoço, não meço esforços…
Ops! Ele acaba de lamber meu pé!
Mansinho, super sociável!
Geralmente sinto que chamo mais atenção que ele, talvez pelos meus trajes: jeans (o primeiro que vejo pela frente), camiseta (pra não ter que me preocupar se alguma banha está aparecendo), tênis (o mais velho e confortável que tiver), descabelada (afinal, quem tem saco pra arrumar o cabelo?), olheiras (manter o clima down e inibir qualquer tipo de contato).
Convivo com ele da melhor maneira possivel, nunca sei quando vem ou quanto tempo vai ficar.
Hoje é um dia de visita! Pior: amanhã combinei com as amigas de curtir um samba e ainda não lhe perguntei se samba está entre seu gosto musical.
Não gosto de ser traiçoeira, até porque tenho laços afetivos com ele, mas logo logo vou deixá-lo perdido no metrô. Espero que tão cedo ele não encontre o caminho de casa!

Gravações, gravações, gravações…

Graças a Deus, isso pra mim é trabalho. E quanto mais trabalho melhor.
Não é apologia ao trabalho. É apologia ao não-desemprego e ao ócio nada criativo.

A maioria das pessoas que não estão envolvidas no mettier da produção de videos e filmes não sabe, mas a gravação de qualquer coisa, desde um videozinho pro YouTube, a um longa-metragem é um puta estresse. Tempo curto, pouca grana (time is money, indeed), diretor pentelho, cliente mais ainda, muita pressão pra tudo sair certo e bonito.

CLARO que nem sempre tudo acontece da melhor forma possível. Mas no fim, TEM que dar certo.

E pra que tudo dê certo é preciso que todas as partes se envolvam, até o pescoço. É como uma engrenagem: se um não faz direito, o outro não consegue trabalhar, nem o outro e assim vai.

Precisa paixão, precisa tesão. Sangue frio vai muito bem, também.

E depois que a tsunami passa, que todos já tiveram seus fígados comidos, em conjunto, é que dá pra ver a equipe. Todos no mesmo barco, com os mesmos problemas, que vão ser solucionados.

Na minha última gravação, quando eu achei que eu fosse matar alguém, ou passar mal de tanto estresse, recebi a notícia do falecimento de um conhecido de trabalho. Morte por pneumonia aos 27 anos.

Silêncio.

Pareceu que toda aquela energia que eu tava jogando fora, pro ar, caiu sobre mim quando eu recebi a notícia. Fora o choque que todo ser humano tem ao saber que algum conhecido morreu (não adianta, ninguém encara a morte bem), eu percebi que a vida é muito maior que um set de filmagem. Percebi que: foda-se se eu não conseguir aquilo que não foi briefado e que faltou. Foda-se se eu nao corresponder às espectativas. Foda-se, porque eu tô vivo e em outra oportunidade eu vou conseguir.

Realmente, a vida é muito maior que uma tela de 21 polegadas.