“Nasci não faz muito tempo, em 1984, era agosto, dia 18. Dizem as más línguas que é o mês dos desgostos, pra mim não passa dum mês que não há feriados, que é quase frio, mas na verdade nem faz frio, nem faz calor. Agosto: mês de trinta e um dias.

Como disse parece que não faz muito tempo. Não sinto pelo menos. Apenas não reconheço mais o meu corpo miúdo e minha cabeça não tem o mesmo entusiasmo de quando menino. Apesar disso, por dentro continuo sendo o mesmo moleque curioso e impaciente, que inventa histórias na cabeça, que detesta caretices.

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Acho que passei minha infância toda querendo descobrir como funcionavam as coisas, o porquê disso ser assim, o porquê daquilo ser assado. Se não descobria, arquitetava uns quebra-cabeças malucos e encontrava por conta própria algo que me convencesse. Noutras vezes mamãe me ajudava, me dava um beijo sem estralo, só os lábios encostados na minha testa e corria pro trabalho, e eu orgulhoso da minha marquinha de batom. Tinha vezes que minha bisbilhotice irritava meu irmão, ou ele mentia, ou me dava um cascudo, ou brincava comigo, ou nem respondia. Minha irmã e minha tia (que moravam com a gente) tentavam sempre me entreter (normalmente quando a paciência delas era muita), me davam outras histórias pra brincar, as delas, as dos gibis, as da família. Na minha casa tem parede rebocada de história.

Não mencionei meu pai porque dele não me recordo. Nas minhas lembranças ele esteve presente em fotografias polaroid, das coisas que meus avós, que meus tios, que minha mãe me contavam. Ele partiu dez meses e seis dias depois de eu ter nascido. Três dias antes havia começado o inverno.

Aqui em casa não tive que aprender que homem não chora. Na verdade me ajudaram a descobrir que homem que chora é um sinal de que a gente pode confiar no coração dele. E nunca tive medo nem de sofrer, nem de chorar. E aprendi a admirar também os invernos (e os seus cobertores).

Fui um adolescente vezes tímido, vezes desinibido demais. Vezes inseguro, vezes convicto como nenhum outro homem. Ansioso por natureza. Os sonhos que plantei de pura teimosia, os hormônios, os primeiros amores, a rebeldia. Como costuma ser, passei minha adolescência inteira procurando saber quem eu era. Não sei se descobri, hoje ao menos sei que eu só queria ser eu mesmo. Falo como se fossem anos longínquos, mas nem sei se deixei de ser menino, se deixei de ser adolescente. Continuo tentando decifrar o mistério do meu eu.

Por volta dos meus vinte, eis que chega meio por acaso, meio como conforto, meio como temor, a universidade. Jornalismo! Difícil falar de uma fase que sequer terminou. Ainda a mesma preguiça de acordar cedo, os ônibus lotados e aqueles montes de sovacos e bocejos olhando pra mim. Detrás dos óculos os olhos analisando o caminho todo dia de uma maneira diferente, os atrasos, o prazer de dividir o cotidiano com aqueles que se tornaram amigos, o desprazer de às vezes fazer o que não se quer fazer.

E esta autobiografia, inacabada, faltando pedaços, que deveria falar do meu passado, das coisas que fiz, dos meus méritos, acaba por tratar um pouquinho desse mistério. Deparo-me com um sentimento fundo de voltar lá para o tempo das histórias que me contavam e eram tão bonitas, uma vontade estúpida de ser adolescente e ser intenso, será que isso é que é ser homem? Nostalgia. Fotografias da memória. Polaroid.”

Dannillo Rocha é baiano, tem 24 anos e é leitor do Páginas Arrancadas.