“24 pra 25 de dezembro. Eu gostaria de lhe mandar um cartão de Natal. Um cartão Natalino bem bonito. Um laço vermelho desenhado na frente, uma casinha distante, um pinheiro, Papai Noel bem gordinho. Contornos dourados por todos os lados. Eu gostaria de fazê-lo com as minhas próprias mãos. Não sou bom pra desenhar, nem pra colorir.
Eu não lhe enviaria um cartão musical. Estão fora de moda, e mesmo quando eram moda não deixavam de ser irritantes. Acho que você também não gostaria de receber um. Eu queria escolher o que escrever dentro também, e cartões com nada-escrito-dentro são nada fáceis de encontrar.
O que eu deveria escrever pra você? Eu decidi escolher, mas o quê?
Uma frase. Corriqueira. É o bastante.
FELIZ NATAL!
Com todas as letras maiúsculas e ponto de exclamação. Mas só uma. Ou seriam melhor três delas?
FELIZ NATAL!!!
Que diferença faz? Um pouco mais enfático apenas. Um pouco? Não! Opto pelo primeiro: FELIZ NATAL! Uma sozinha! Ou só duas maiúsculas e sem exclamações?!? Melhor, né?!?

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Feliz Natal.
É desse jeito, só isso. Estou satisfeito.
Feliz Natal.
Um especial. Igual e diferente de todos. Com barulho de sino de igreja à meia noite e de Roberto Carlos cantando na TV mesmo que ninguém esteja realmente assistindo. “Feliz Natal.” com sabor de coxa de peru sendo comida com as mãos e bastante saliva. Seria melhor se fossem as mãos daqueles que têm fome. Mas não quero lhe lembrar de nenhuma tristeza. Se bem que o Natal costuma ser um desolador de almas. Dia bom para todo mundo, exceto para perus e afins, e para os irremediavelmente infelizes. Talvez fosse bom que você orasse com compaixão por eles. Afinal, é Natal. Talvez eu seja um deles, lembre de mim.
Um “Feliz Natal.” com cheiro do quase-sem-cheiro que pertence às nozes, às bolas de natal e aos piscas-piscas. Feliz Natal dos abraços familiares calorosamente trocados. Dos abraços até das sogras e dos primos que desgostamos, mas dados com alguma satisfação. Calor de lágrima de vela e de benção de padre vestido pra missa em capelinha branca.
Eu queria lhe enviar um cartão de natal, bem natalino. Dentro dele, todas essas coisas. E barulho, cheiro, sabor e calor do abraço que não poderei lhe dar, mas que lhe ofereço de bom grado. Você lendo as duas palavrinhas acompanhadas de um ponto, a data e a minha assinatura, e Jesus lá em cima, menino, olhando por nós.”

por Dannillo Rocha