No incrível “Janela da Alma“, o fotógrafo e filósofo Evgen Bavcar, cego desde os 12 anos, conversa com uma modelo na rua. Bavcar diz a ela que está carregando um pequeno espelho em sua lapela, caso a falta de um olhar lhe fosse desesperador.

Um tapa na cara. Com luvas de pelica.

Certas coisas precisam de outras para existirem. Exemplo clássico, e um pouco cliché, é o Bem e o Mal. De fato, não existe o Bem nem o Mal. O que existe é a falta de um ou de outro.

Mas Bavcar lançou na minha cabeça um conceito novo. Dois, na verdade.

Evgen Bavcar

Um é de que a Beleza só existe se ela for vista, observada, admirada, tida como bela, incontestavelmente.

O segundo, complemento e antítese do primeiro, diz que a Beleza simplesmente É. Ela não precisa ser vista para ser bela. Ao mesmo tempo, como antístese, quebra a essência de ser do Belo e de ter necessidade de um observador para viver o Belo.

Agora, transferindo tais conceitos para vida “real”, vejo que muito daquilo que precisa de um complemento na verdade se basta em sí.

Ingmar Bergman em “Cenas de um Casamento” trata dessa relação pseudo-simbiótica, transposta na vida de um casal burguês da Suécia. O casamento de Marianne e Johan vai acabando, pouco a pouco, e os personagens são obrigados a viver com suas próprias pernas. Obrigados a serem, por sí sós.

Cenas de um Casamento, Ingmar Bergman

Nessa relação de necessidade versus auto-suficiência do olhar do outro, difícil saber até onde vai a tênue linha que separa tal necessidade do olhar da insegurança e do medo da auto-destruição (que viria, questão de tempo).

Uma amiga, certa vez, me disse: “Somos todos inseguros. Ninguém é completamente seguro de sí”. Me questiono seriamente, após Bavcar e Bergman, sobre isso. Seriamos inseguros de verdade? Ou somos somente medrosos, com vergonha de Ser o que somos. De assumir. De errar, errar e errar?

Ao mesmo tempo, sei que somos seres sociais. Que necessitamos do outro, do olhar do outro. Do cuidado, do carinho, do amor. Amor irrestrito. Evoluimos assim. Bem ou mal, chegamos onde estamos assim. Mas será que nossa beleza, seja ela qual for, necessita do olhar alheio para somente ser bela? Aquela atriz de Hollywood só é bonita por que existem milhares de câmeras apontadas em sua direção? E aquela mulher que passou na rua é feia por que ninguém quis olhar para ela?

A Beleza se restringiu a isso? À falta de um olho que queira (ou possa) vê-la? Milhares de anos de estudo, de análises e conjecturas de intelectuais brilhantes nos levaram a isso?

Tudo, por fim, nos levou a acreditar que não exista beleza naquilo que foge a padrões?

Muitos milhões em clínicas de beleza e transformação corporal. Milhões em terapias para auto-aceitação. Para auto-conhecimento. Para auto-admiração. Para que o olhar do outro se volte para cada um de nós.

Quando, na verdade, o olhar do outro é tão efêmero.

É somente um olhar.