Me sinto estranho de pensar em não ter pra quem ligar quando o bicho pegar, o pneu furar, o cachorro morrer. Ficar sozinho no final. Já tive medo de verdade, daqueles de paralisar e sufocar. Agora eu encaro a solidão de uma forma diferente, como um momento de encontro pessoal. Eu comigo mesmo.
No colegial, uma professora de literatura, Dona Rose, me marcou. Pra ela solidão não existe. É um criação humana. Nós somos sozinhos somente se quisermos. E ninguém tem nada a ver com a nossa dor. Ela é nossa. Quando não aguentássemos mais, deviamos nos trancar no banheiro e chorar tudo aquilo que tinhamos pra chorar. Ninguém podia ver e ninguém iria ver. Aquele seria nosso momento. Daí, deviamos lavar o rosto, abrir um belo sorriso e sair. Pra qualquer lugar que fosse. Se não tivessemos ninguém pra nos acompanhar, nós nos bastaríamos. Não existe melhor companhia que nós mesmos. Aquilo me tocou, mas claro que depois disso eu sofri horrores com os pés-na-bunda, desilusões, brigas e afins. Mas esse toque que ela deu ficou no meu subconsciente e tenho tentado trazê-lo a tona. A cada dia.
Hoje acredito que me basto. Estou a caminho da independência, sou resolvido, assumido, e em processo.
E sim. Me tranco no banheiro e choro. Copiosamente. Lavo a alma. Tem momentos que tudo parece me testar. Mas depois da Dona Rose, eu nunca mais deixei que vissem que eu estava realmente mal. De fato, poucas pessoas se importam de verdade se você está mal ou radiante. Não acho que isso seja pessimismo, de forma nenhuma. É realidade. Eu mesmo não me importo muito. Claro que tenho noção e não dou gargalhada em velório, mas é muito complicado entender a dor alheia, principalmente de quem se conhece pouco.
Percebi que nós passamos uma boa parte do tempo rodeados de pessoas que pensamos conhecer, mas que são ilustres desconhecidos. Incrível como o ser humanos é multifacetado. Quando você acha que sabe tudo da pessoa, surge um lado que te espanta.
Me moldei a essa forma de ser do mundo e parei de sofrer por isso. Ou de sofrer tanto. Porque minha dor maior nesses casos era pensar que eu não signifiquei nada, que eu não merecia tanta dor, que não podiam fazer aquilo comigo. Hoje eu vejo o contrário. Quando alguém sai da sua vida é porque tinha que sair. Uma hora ou outra aquelas “coisinhas” que você aceitava meio a contra gosto iam pesar e a tudo ia degringolar. E ”aquilo não podiam fazer comigo” era me deixar comigo mesmo. E, para aqueles que se foram, eu só lamento. Porque sou uma ótima companhia.
Agosto 24, 2007 at 12:15 pm
abra seu coração, tatá